O Ser e o Corpo


Aquele que veio para servir
Tornou-se o senhor do destino.
Seduziu-nos de formas hábeis,
Criando ilusões:
A vida está na promessa do futuro,
O agora é para fazer e planejar
E o passado para culpar-se ou esquecer.
Elegeu o pensar a sua morada e abandonou o Ser.
Elaborou estratégias de vida e de sucesso,
Criou compromissos e labores,
Ditou normas, regras e deveres,
E prometeu a paz na realização!
Indolentes, meio dormidos,
Acreditamos na ilusão. Lutamos por ela.
E grande parte da vida em sua adoração.
Aquele que veio para servir
Tornou-se senhor do destino,
Apoiado por nosso servilismo .
E entre tantos desatinos,
Perdemos o Ser e o coração.
Acreditamos no pensar,
Como único caminho
E o mundo tornou-se um desalento.
Esquecemos a Alma, o sentimento
E o peito ficou vazio, sem preenchimento.
A luta pela vida ocupou todos os espaços
E a harmonia interna foi para o esquecimento.
É hora de acordar, de sair da inconsciência!
O amor clama pelo reencontro
Da Essência que sempre nos animou:
No sentir a nova esperança,
No expressar a sua afirmação,
No refletir a sua integração
E na troca mútua a sua realização.

Aquele que veio para servir,

Deve servir!

Dimas Callegari (11/10/03)
 


Quando nos perguntamos: “quem somos nós?” (1), evidenciamos que nos perdemos ou que nunca nos conhecemos. Evidenciamos também que usamos apenas o nosso pensamento como o caminho do autoconhecimento. Vivemos há trezentos anos num paradigma de divisão interna entre o corpo e a mente, entre a matéria e o pensamento. Esquecemos do corpo e das sensações profundas como fonte do autoconhecimento.

No século XVII Descartes (2) fixou as bases do atual paradigma na célebre frase “penso logo existo”. Afirmou que o que acontece na mente não tem nada a ver com o que acontece no corpo e o que acontece no corpo não tem nada a ver com o que acontece na mente. A partir daí o mundo ocidental criou a cultura tecnológica, foi à lua e vasculha o universo, mas não resolveu as questões mais básicas das guerras e da fome que assola dois terços da população mundial.

Apesar do progresso das Ciências, da euforia do desenvolvimento tecnológico, as coisas parecem não funcionar bem. Sentimo-nos infelizes, entramos em constantes conflitos com o mundo e com as pessoas, não nos sentimos realizados, deprimimos, perdemos o sentido da vida, etc.

Buscamos ajuda, é bem verdade, lemos livros de auto-ajuda, consultamos especialistas em comportamento humano, pagamos caro a psicoterapia, os cursos de desenvolvimento pessoal, etc. Culpamos o mundo por nossas insatisfações e frustrações. Culpamos o cônjuge, a família, os filhos. Culpamos até o terapeuta que pagamos e não nos ajuda! Ouvimos, com freqüência, que a solução não está lá fora, mas dentro de nós mesmos. Não entendemos muito bem o que isto significa. Insistimos!

Há quem diga até que a questão é que Deus nos colocou neste mundo e esqueceu de deixar o manual de instruções. Já ouvi até que, se é verdade que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou, Ele deve continuar descansando, enquanto nós aqui continuamos sofrendo. Há quem diga que o problema é econômico, é político, é falta de religião, é a família patriarcal, é a repressão sexual, é o consumismo, etc.

A humanidade já teve muitas formas de economia, política, religiões, tipos de família e agora temos até a liberdade sexual. Nada parece resolver a questão fundamental humana: por que não somos felizes? O que há de errado com as buscas humanas? Parece que andamos em círculos, presos num labirinto sem saída. Parece que nos evadimos do essencial! (3)

Vamos olhar para nós mesmos a partir de outro paradigma:

Nascemos com uma identidade primária ligada diretamente à nossa Essência. Esta identidade é energética e está ligada ao interior do corpo que é sensível, visceral. Quem já teve filhos pôde observar: nenhum bebê é igual ao outro; cada um tem uma identidade própria ao nascer! Faz parte de sua Essência.

Em nossa Essência somos amorosos, voltados para o prazer, somos criativos, realizadores, protetores da vida e interessados na relação e no conhecimento. Buscamos o amor, o trabalho e o conhecimento. Estas buscas derivam das três forças da vida: força amorosa, da força instintiva e da força mental (4). Elas constituem os núcleos energéticos e corporais do Ser, da nossa identidade primária!

Se nascemos amorosos, voltados para o prazer, criativos, realizadores, protetores da vida e interessados na relação e no conhecimento, o que nos aconteceu que nos tornamos distantes, temerosos, preguiçosos, agressivos, destrutivos, pouco protetores da vida e néscios em relação ao conhecimento e ao autoconhecimento? Por que nos entorpecemos?

Voltemos ao corpo. A Essência é energética e está ligada ao interior do corpo, ao nível visceral. A superfície do corpo, representada pela pele, músculos e órgãos dos sentidos, estabelece o contato e a relação com o mundo externo através da percepção e da ação, e com a Essência, através das sensações profundas.

A partir da superfície corporal organizamos o nosso ego, a instância necessária para a relação com o mundo e para a realização de nossa Essência. O ego é o que veio para servir! Sua função natural é captar a Essência, perceber o mundo externo e buscar o planejamento e a ação adequada para a realização do Ser.

Em seu desenvolvimento, o ego organiza uma identidade secundária que resulta dos conflitos entre as necessidades internas e os limites do mundo externo. Baseada no paradigma cartesiano, essa identidade torna-se basicamente mental. Com o tempo, passamos a acreditar que somos esta identidade e nos distanciamos de nossa Essência, de nosso Ser.

O ego também é sustentado pelas forças amorosa, instintiva e mental, porém, de uma forma distorcida e comandada pela força mental. A identidade secundária é formada a partir de imagens e crenças que adquirimos na infância, imagens e crenças infantis. Através dessas imagens e crenças, organizamos os papéis que desenvolvemos socialmente. Tornamo-nos filhos, cidadãos, amantes, pais, professores, médicos, comerciantes, governadores, presidentes, etc., baseados nessas crenças e imagens infantis. Passamos a nos definir a partir desses papéis. Acreditamos que somos o que pensamos, o que fazemos e do jeito que o fazemos.

Criamos ainda uma imagem ideal do que deveríamos ser para alcançar o amor e a paz que necessitamos. A partir daí nos exigimos, cobramos e criticamos por não alcançar o ideal acalentado e nos sentimos culpados e inferiores como se o mundo nos cobrasse tal desempenho. Culpamos também o mundo por não colaborar com o nosso empreendimento pessoal. Defendemos essa identidade com unhas e dentes como se ela fosse vital para a nossa sobrevivência. Apegamo-nos às crenças e imagens que sustentam a nossa identidade secundária! Não abandonamos a nossa mente e acreditamos que toda solução deve ser mental.

Mesmo quando nos dispomos a questionar nossas crenças e imagens infantis, ainda assim, a mudança não se dá tão facilmente. Na mente apenas, não existe solução. A mente enfrenta os problemas como questões a resolver, colocando-se à parte e não como questões a ser, a sentir! A informação sozinha não muda o comportamento. O ser humano já tentou muitas revoluções a partir de ideologias humanistas e amorosas. Todas elas esbarraram em fatores humanos que as levaram a resultados precários.

Buda, Moisés, Cristo, Maomé e tantos outros mestres e avatares são provas incontestes do fator humano no fracasso de suas realizações. Na década de setenta muitos de nós acreditamos no “quem sabe faz a hora, não espera acontecer” e muitos pagaram com dores ou com a vida por essa crença.

A solução não está na mente. A evolução humana está em sua consciência e esta não é constituída apenas pela mente, ela inclui o corpo. Só faz sentido o que pode ser sentido! O que pode ser sentido pelo corpo faz sentido para a pessoa e pode mudar seu comportamento. Ao organizarmos a identidade secundária, abandonamos o corpo e suas sensações profundas e passamos a olhar apenas para o exterior. Bloqueamos as sensações que entravam em choque com nossa identidade secundária. Afastamo-nos de nossa natureza profunda, perdemos o contato com as raízes naturais de nossa personalidade.

Perdemos o contato com o Ser!

Talvez você me questione perguntando-se: não temos tantas academias, tanto cultivo do corpo e da saúde física? Eu lhe diria que é verdade, que cultivamos o corpo, porém interessados na silhueta, no que vamos mostrar para os outros, para a performance e para a eficiência física.

Trabalhamos o corpo para a eficiência do ego, cultivamos o corpo como mais um bem de consumo e não para senti-lo ou para retomarmos o contato com nossa Essência. Estamos mais interessados em lustrar a auto-imagem que em ampliar nossa consciência ou o contato e a realização de nosso Ser.

A perda do contato com as sensações profundas resulta num vazio sensorial na consciência. Sobre este vazio a mente “cria realidades” a partir das quais pressiona o corpo a responder em concordância com elas. A pressão excessiva sobre o corpo altera a sua fisiologia e gera doenças psicossomáticas. Essas “realidades” fazem parte dos valores e crenças sociais de cada cultura. A questão não é a cultura ou as realidades criadas pela mídia em suas várias formas, mas o vazio sensorial que cada um de nós carrega internamente.

É isso que nos torna presas fáceis que qualquer forma de propaganda, por mais estúpida ou enganosa que seja. Acreditamos mais no que nos falam do que no que sentimos. Estamos mais interessados em pertencer ao rebanho do que em realizar nosso verdadeiro Ser.

Podemos generalizar afirmando que as questões trazidas pelos clientes situam-se em duas direções:

  1. Dificuldades de relacionamento, auto-crítica exagerada, auto-exigências, sintomas físicos e doenças psicossomáticos, todos eles derivados da pressão contínua que fazemos para ser o que realmente não somos, mas que corresponde à imagem criada e ao esforço para atingir a imagem idealizada.
  2. Perda de sentido da vida em função da perda do contato com seu Ser Interior. A vida perde o sentido pois “só pode ter sentido aquilo que for sentido”.

Todo terapeuta consciente sabe que não tem soluções específicas para seu cliente, exceto seu objetivo de colocá-lo em contato com sua própria Essência, onde ele mesmo tem as soluções necessárias para a sua auto-realização. É aí que está a sua verdade. O que o cliente necessita é desse contato e do apoio para que confie em suas sensações profundas.

A força amorosa, a força mental e a força instintiva constituem as forças básicas da vida. No corpo, correspondem aos três centros vitais: a cabeça, o peito e a pelve. Ativar esses centros e trazer para a consciência os reais potenciais das três forças vitais é o caminho do verdadeiro desenvolvimento humano. Antes, entretanto, é necessário desfazer a distorção, a rigidez e o temor em relação a cada uma delas. Em seguida é importante centrar a identidade do Ser na força amorosa.

Somente a força amorosa é unitiva e capaz de desfazer os conflitos internos. Em seguida, necessitamos alinhá-la com as forças mental e instintiva. A força mental e o ego baseado nela estão aí para servir ao coração e não para se assenhorarem da personalidade. Quando nos centramos na força amorosa, sabemos intuitivamente que nossa vontade consciente é livre apenas para as pequenas coisas. Para as grandes questões da vida, estamos a serviço do Ser que somos antes de desejarmos ser! A verdadeira ajuda para o desenvolvimento humano está em apoiá-lo, não apenas no que ele já é, mas no que ele ainda não pôde Ser.

Centramento da identidade no Ser

Na maioria das pessoas a identidade está centrada na força mental, no saber ou na força instintiva, no ter ou possuir. A fonte primária de energia é a Essência e sua característica básica é a união e a harmonia. Quando nos centramos na força amorosa, recuperamos a integridade, sentimo-nos unos com o mundo que nos cerca, recuperamos a harmonia interna e externa, pertencemos ao universo e a Deus. Recuperamos a fé no amor!

A força instintiva provém da Essência e é acionada de forma reativa. Enquanto nos mantivermos centrados nela, isolaremos a Essência e mantendo a divisão interna.

A força mental é por natureza separatista, pois coloca-se como observadora, prevenida e meticulosa. Se a identidade se mantiver centrada nela, a separação interna tornar-se-á rígida.

A plena consciência do Ser envolve pelo menos quatro níveis de vivência:

  1. O Ser é perceptivo. Move-se pelo anseio cósmico de superposição e fusão, buscando contato contínuo com outros seres e com o Universo.
  2. O Ser é sensorial. Está identificado com suas sensações corporais profundas, suas emoções e sentimentos. Ao sentir torna-se expressivo.
  3. O Ser é conceitual. Está identificado com a capacidade mental de conceituar suas vivências interiores, o que possibilita refletir sobre si mesmo.
  4. O Ser é consensual. Está identificado com a capacidade de comunicar-se com outros seres humanos e de entendê-los. Pertence a algo maior que o si mesmo. Faz parte de um consenso! Pode refletir sobre o mundo que o cerca.

Alinhamento das forças vitais

A força amorosa provém da Essência, é energética e visceral, não tem proteção. Para estar no mundo necessita que a força instintiva lhe forneça os meios para a proteção do corpo, a continuidade da vida, o prazer e a força para o trabalho e a realização. Quando a força instintiva se alinha com a força amorosa, desaparecem os conflitos entre o amor e o prazer, entre a realização pessoal e o trabalho. O possuir estará a serviço da segurança e da proteção e expressão da Essência, e não como uma finalidade em si mesma.

A força amorosa necessita da força mental para conceituar suas vivências, a partir da qual pode refletir sobre si mesma e se comunicar com outros seres humanos. Necessita da avaliação objetiva da realidade e de estratégias para a realização e concretização de seus potenciais. A força mental, ao alinhar-se com a força amorosa, usará a percepção objetiva da realidade, o contato com as sensações internas e o planejamento de estratégias para assegurar e proteger a identidade primária no nível social. Ao conceituar a vivência profunda, possibilitará pensar o si mesmo e sua comunicação com outros seres humanos, em vez de estar comprometida com a preservação da identidade secundária. Quando a força mental se alinha com a força amorosa, desaparecem os conflitos entre o conhecimento e o amor, entre a Ciência e a espiritualidade, entre a razão e a intuição.

 

Orientações para contato com o Ser

  1. Fale de si próprio, deste seu momento e não do outro ou de sua história.
  2. Retome constantemente suas sensações corporais, sentimentos e emoções.
  3. Expresse o que sente através de suspiros, choro, emoção, anseios de tocar, apoiar o outro ou pedir ajuda.
  4. Nomeie o que sente e reflita sobre o que sente; reflita sobre seu próprio Eu.
  5. Comunique ao outro as reflexões que faz sobre si mesmo. Afirme seu Eu!
  6. Ouça atentamente o que o outro fala dele mesmo. Olhe-o diretamente. Afirme e receba o Eu que se comunica!
  7. Tome consciência de sua resposta interna (sensação, sentimento, emoção) ao receber a comunicação da outra pessoa.
  8. Expresse e comunique suas sensações, sentimentos e emoções em relação à comunicação do outro. Não fale dele, não o julgue, não o analise, não o avalie; comunique apenas o que você sente internamente! Por exemplo: "Eu me sensibilizo com sua dor, sua situação move também a minha dor".
  9. Só dê sua opinião quando o outro solicitar alguma avaliação ou conselho, porém comece sempre expondo como você se sente no momento. Por exemplo: "Eu me sinto sensibilizado com sua pessoa e como você está me permitindo, gostaria de dizer-lhe que..."
  10. Clareie para você mesmo o que você percebe, o que você sente e o que você pensa sobre o outro. Você pode percebê-lo cabisbaixo, triste, sentir-se preocupado com ele, e talvez esteja muito interessado em saber o que se passa. Não interprete o estado dele. Seja franco e direto: "Eu o percebo cabisbaixo, estou preocupado com seu estado e gostaria de saber o que se passa com você, se você se sentir à vontade para se expor!. É importante aceitá-lo não disponível para se expor!
  11. Desfrute de seus momentos de contato com seu Ser, não importando onde você esteja: num bar, numa roda de amigos, numa relação amorosa, num momento de sua espiritualidade, etc.

 

Orientações para o Terapeuta

  1. Normalmente seu cliente estará trazendo as imagens e crenças infantis ou os papéis e funções sociais que organizou a partir delas. É sua identidade secundária.
  2. Não critique, não entre em choque com suas crenças e imagens. Saiba que elas são predominantemente mentais e que, a partir daí, determinam suas respostas corporais e emocionais.
  3. A rigidez ou a dificuldade em questionar suas dificuldades deve-se à ausência de um contato com suas sensações corporais profundas, que o colocaria em contato com seu verdadeiro Ser. Ele não é culpado de estar assim! Seja paciente com seu cliente.
  4. Trabalhe consistente e repetidamente em seu corpo para ampliar a pulsação energética e o contato com suas sensações profundas.
  5. Traga constantemente sua consciência para o corpo para que ele identifique, descreva e nomeie suas sensações.
  6. Ajude-o a refletir sobre suas sensações, emoções e sentimentos. Ajude-o a refletir sobre seu Ser.
  7. Confie que a Essência tem uma sabedoria profunda e uma direção inteligente na direção da auto-realização.
  8. Não se preocupe com as pequenas questões, elas fazem parte do ego e da identidade secundária. Priorize as questões do Ser, da Essência! Estas são curativas.
  9. Confie mais em sua própria Essência; ela lhe trará intuições profundas sobre a vida, o amor, o prazer e o conhecimento.
  10. Quando você estiver com seu cliente, raciocine menos e sinta mais.

 


Bibliografia

  1. Callegari, Dimas. Quem somos nós? Cadernos pessoais. S. Paulo.
  2. Capra, Fritjof. O ponto de mutação, Cultrix, S. Paulo, 1982.
  3. Reich, Wilhelm. Ether, Deus e o Diabo.
  4. Callegari, Dimas. As três forças da vida. Cadernos pessoais. S. Paulo.

 

Dimas Callegari